| 09.Abril.2007
Entrevista na revista OJE
“João
Trigo da Roza, presidente da Associação Portuguesa
de Business Angels, e os seus associados procuram negócios
globais. Se tem uma ideia inovadora, cujo mercado é o mundo,
encontrou as pessoas certas. Não custa tentar. Afinal, foi
com a ajuda de business angels que, lá fora, nasceram negócios
emblemáticos como o Skype, o YouTube e o Google, lembra Milena
Melo.
Os portugueses são empreendedores?
Sim, como todos os outros povos. No entanto, é
preciso estimular a vontade de assumir riscos e valorizar a opção
do empreendedor. E é preciso começar cedo. Devemos
estimular as crianças para a necessidade de empreender.
Qual o papel dos business angels na promoção
do empreendedorismo?
É vital. Há pessoas que têm potencial
empreendedor, têm ideias, mas não têm conhecimentos
necessários para abrir um negócio. Não têm
uma rede de contactos, não conhecem o mercado. É aí
que entra a figura do business angel, que tem a capacidade financeira
e a disponibilidade para fazer o chamado coaching destes pequenos
negócios.
Os empreendedores não têm medo
de revelar os seus projectos?
Sim, esse é um dos receios dos empreendedores.
No entanto, todos os nossos associados têm de assinar um acordo,
em que se comprometem a não divulgar os negócios em
que estão envolvidos sem autorização prévia
dos empreendedores. Apesar disso, procuramos alertar os empreendedores
para o facto de que o que conta não são as ideias,
mas sim a capacidade de execução.
Há uma certa fragilidade em relação
à protecção das ideias?
Sim, em Portugal investimos pouco em patentes. A primeira
pergunta que fazemos aos empreendedores é se têm a
ideia patenteada. Temos encontrado algumas omissões que são
complicadas caso as empresas queiram internacionalizar as suas operações.
Muitas vezes os empreendedores acautelam a componente nacional,
mas esquecem-se do resto.
Que género de projectos atrai a atenção
de um business angel?
Negócios com grande potencial de crescimento. No
caso específico da APBA, os associados procuram projectos
que possam ser globais. Essa é a nossa vocação:
projectos com dimensão internacional. O segundo critério
de selecção é o empreendedor em si. Interessa-nos
encontrar pessoas que tenham a força e o drive necessários
para levar um projecto para a frente. Aliás, este critério
talvez seja o mais importante. Ideias há muitas, são
as pessoas que fazem a diferença.
Como percebem quem são as pessoas certas?
Conversando muito. Temos uma comissão de gestão
dos projectos, que procura esse contacto pessoal, que procura encontrar
os empreendedores ideais. Depois disso, juntamos os associados num
jantar e apresentamos os projectos que parecem mais interessantes.
Em que moldes se estabelecem parcerias?
Até agora todos os empreendedores que temos contactado
têm mostrado muita abertura em relação aos business
angels. O nosso papel não se resume ao apoio financeiro dos
projectos. A nossa óptica é de parceria. Nós
estamos ao lado dos empreendedores. Cada caso é um caso.
Depende da contribuição de cada parte. A ideia é
chegar a um acordo que valorize as contribuições financeiras,
mas que também valorize o trabalho de cada uma das partes.
Não consigo dizer que o business angel, no final, fique com
metade, com um terço ou 90% do negócio. Uma coisa
é certa, na APBA gostamos que o empreendedor mantenha o controlo
do negócio, para que possa, pelo menos na fase inicial, dar
tudo de si.
Que conselhos daria a um empreendedor que
quer vender uma ideia?
Nós já vimos mais de 40 projectos. Quando
se trata de uma nova invenção, por exemplo, muitas
vezes os empreendedores utilizam discursos demasiados técnicos.
Numa fase inicial essa componente não é tão
essencial. Em primeiro lugar, um empresário tem de saber
responder às questões: Quem são os seus clientes?
Quais são os seus concorrentes?
A maioria dos projectos que recebem está
ligada a que área?
Recebemos projectos desde as áreas mais tradicionais
às áreas mais tecnológicas. Há projectos
de biotecnologia, tecnologias de informação, na área
do turismo, do bem-estar, dos serviços, enfim, projectos
de todo o género e feitio.
Quantos membros tem a associação
e qual o capital disponível?
Temos 81 membros e 10 a 12 milhões de euros disponíveis
para investir, segundo dados de um inquérito que fizemos
com os nossos associados. Neste momento temos cerca de três
projectos em vista. Estes primeiros projectos rondam um investimento
entre 1 a 1,5 milhões de euros, numa primeira fase.
Qual o melhor investimento alguma vez realizado
por um business angel?
É difícil de saber qual terá sido
o melhor. O YouTube, por exemplo, nasceu com o apoio de business
angels. O próprio Google e Skype também. O retorno
de quem investiu nestes negócios é muito significativo.
O Estado deve incentivar os business angels?
Sim. Julgo que têm sido dados alguns passos que
são positivos. Há uma proposta da CMVM para criar
um enquadramento legal específico para os business angels,
equivalente ao que já existe para os fundos de capitais de
risco. Todo o tipo de incentivos é positivo, para os empreendedores,
para os investidores e para o País.
Em Inglaterra os business angels podem deduzir
até 25% do investimento. Acha que poderíamos aplicar
o mesmo em Portugal?
Penso que sim. Tive a oportunidade de assistir a uma apresentação
do responsável pela direcção-geral dos impostos
inglesa em que defendia que o efeito multiplicador destes investimentos
é de tal forma significativo que acabava por compensar. Ora,
se isso é válido em Inglaterra, acredito que também
seja em Portugal."
Texto da entrevista dada pelo Eng. João Trigo
da Roza à Revista OJE
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